domingo, abril 15, 2007

O Máximo

Hoje ele percebeu o que ela representava. Amava-a de um jeito estranho, mutante, impreciso. Se aquilo que sentia pela mulher não fosse "amor", quem importaria o outro nome daria?

Era admirável em inteligência e graça. Motivo para encher a boca e dizer aos mais próximos (e aos estranhos) seus sucessos. Gostava de criar expectativa nos outros em conhecê-la.

Libido, lascívia, talvez a própria loucura, transformavam-na em presa a ser devorada com unhas e dentes ou apreciada lentamente: o aroma particular, o gosto salgado, o corpo quente.

Em outros momentos, ignorava sua força. Via-a frágil. Não suportava vê-la fazendo esforço (mas sabia que quando não estava, ela fazia tudo). Mesmo a irritando, dizia era tarefa dele.

Num dia, ela adoeceu. Mimou-a de todo jeito. Dengos e cafunés. Tratava-a como a uma filha. Mandava tomar os remédios, sair do sereno, comer melhor, não pisar no chão frio... um saco.

Adorava seu colo. Passaria horas ali: sentindo o cheiro do hidratante nas pernas, as mãos macias alisando a cabeça... Foi numa hora dessas que ela disse algo, que só depois de muitos dias ele entendeu: "você é muito egoísta".

segunda-feira, abril 09, 2007

Indivíduo Legal

Há quase dois anos atrás, escrevi aqui sobre um assunto que o Paulo tangencia, o aborto. Mais precisamente envolvendo o feto anencéfalo. Eis que o tema volta à tona com a primeira audiência pública da história do Supremo na ADI que contesta Lei de Biossegurança.

Para fins de transplante de órgãos, pode-se dispor do cadáver no momento em que é constatada a morte cerebral, que é a perda definitiva e irreversível das funções do órgão. Nesse ponto, acredita-se que cessa a existência consciente do indivíduo. Perceba que, neste instante não está sendo questionado se o que "sobra" está ou não vivo, mas a matéria orgânica estará livre à disposição médica.

Partindo do pressuposto que se pode dispor do corpo humano para a doação dos órgãos com a morte encefálica, independente que "uma vida" comece ou termine em qualquer ponto, o mesmo critério deveria ser adotado para determinar o início da impossibilidade de dispor do corpo humano para a finalidade que seja.

Em outras palavras, se a utilização depende da existência ou não de atividade cerebral, isso não significa, necessariamente, o momento que o feto chuta, nada, ou faz gracinhas que provocam o riso ou tiram o sono das gestantes. A atividade pode iniciar anterior à formação de um pé ou uma mão que toque a parede do útero. Se foi possível apontar o fim da existência corpórea e o início da disposição do tabernáculo carnal, podemos e devemos usar o mesmo paradigma para demarcar o começo, a contrario sensu, por lógica, sem a necessidade se ater a uma questão tão filosófica quanto o "início de uma vida humana". E agora, fico me questionando, ante a flagrante ausência no rol dos 17 especialistas convocados pelo STF, por que nenhum filósofo pediu sua admissão como amicus curiae, independente de convite?

Do ponto de vista do Direito Penal. O nosso Código protege a vida intrauterina. Pouco importa se um indivíduo vivo está se desenvolvendo, por exemplo, numa das trompas. Assim, põe-se a salvo o direito de aniquilar uma ou mais vidas antes da nidação. Logo, não podemos sequer falar em abortamento e muito menos em assassinato. Pode existir morte provocada por terceiro sem ocorrer um ou outro. A morte é um fato da vida. Se o STF decidir que seu início precede ao 14º dia a partir da concepção, ainda assim, até o 13º dia poderá ser destruído o óvulo fecundado e, a qualquer tempo, interrompida a gestação tubária sem tipificar crime de aborto. Poderá, contudo, ser dilatado o prazo para a intervenção se for verificada que a vida – e, nesse caso, prefiro o termo "existência" – do indivíduo é posterior ao que o Direito Penal construiu em sua jurisprudência como bem a ser protegido porque, ao proteger a vida intrauterina, já não basta estar no útero, mas sim, estar vivo, dentro dele.

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quarta-feira, abril 04, 2007

Interesse Coletivo

faz parte do Google Labs – o playground tecnológico do Google – é um analisador de buscas, um "Top Of Mind" da internet. Desde que o Google se transformou na ferramenta de busca hegemônica dá para se ter uma boa idéia do que as pessoas buscam na rede. Pois bem... com esse "brinquedinho", qual seria o meu primeiro teste? Nem pensei duas vezes:

debian ubuntu redhat suse fedora

Resultado previsível (e triste para a Red Hat), mas pouquíssimos leitores saberiam do que se trata. O que seria mais "familiar"?

firefox safari opera internet explorer

Muito nerd. O que seria mais comum? Inglês?

sex women beer porn

E os que falam português?

sexo mulher cerveja porno

Agora sim, algo interessante. Enquanto os falantes da língua inglesa preferem as coisas de forma bem variada e buscam o sexo mais do que tudo; para os que falam português, pornô é mais interessante que o próprio sexo, depois, o resto... Bem... Quem se importa com cerveja?

Ok, vamos elevar um pouco o nível:

bom justo belo ético

É uma pena que o que é ético e o que é justo não são tão populares quanto o que é bom e o que é belo. E os próprios valores? Afinal de contas, há uma grande diferença entre uma coisa que é, e a própria coisa. Qual a popularidade desses valores mais elevados?

Your terms - bondade, justiça, beleza, ética - do not have enough search volume to show graphs.

Suggestions::

  • Make sure all words are spelled correctly.
  • Try different keywords.
  • Try more general keywords.
  • Try fewer keywords.
  • Try viewing data for all years and all regions.

Estamos perdidos...

domingo, abril 01, 2007

Tchau, vocês!

Blogar toma um tempo que eu não tenho.
Há tanto para fazer e tão pouco tempo.
Se fosse tentar fazer tudo o que quero...
Teria que, primeiro, congelar o tempo.
Esse vetor inescapável que nos prende.
Posso eleger prioridades, selecionar...
Administrar o tempo, criar uma rotina.
E quem sabe assim não maximize a vida?

Por isso decidi, de forma irremediável.
Blogar toma um tempo que eu não tenho!
Nem sequer está em nenhuma "To Do List".
Já falei demais, prefiro mudar o tom:
"Muito obrigado a todos, valeu mesmo!"
Quem sabe um dia postarei algo de novo?
Um conto ou notícia. Mas, por ora: adeus.

quarta-feira, março 28, 2007

To Do List (In God Mode)

– Arrumar um emprego de verdade
– Aumentar a rotina de estudos
– Conhecer a Europa como mochileiro
– Encontrar um bom livro de Direito Empresarial
– Entrar no mestrado
– Matricular no alemão e no italiano e esquecer (por ora) o japonês
– Ser um bom marido
– Ser um bom pai
– Terminar as aulas de Libras
– Terminar de assistir Battlestar Galactica, Dead Zone, Heroes, Lost, Smallville e Veronica Mars
– Terminar de ler os livros de Arthur Conan Doyle, Douglas Adams, Homero, Platão, e Tolkien
– Terminar Max Payne II e Warcraft III
– Terminar o curso de Kite e de Widsurf
– Voltar a acampar
– Voltar a controlar os gastos com o GNUCash
– Voltar ao ministério
– Voltar ao projeto do manual do CDC para pequenas e micro empresas
– Voltar a surfar de verdade


Em ordem alfabética, just for the fun of it.

quarta-feira, março 21, 2007

Travessia

Todo mundo conhece a fama das faixas de pedestres em Brasília. Independente de semáforos, pedestres conseguem parar o motorista mais apressado com um simples passo.

Depois de muita multa e guardas estrategicamente posicionados nas faixas de João Pessoa, hoje posso calcular o espaço para frenagem, acenar e cruzar ao som de xingamentos de nossos obedientes motoristas.

Todavia, a aventura mora em Curitiba (aonde passei esse fim de semana). Aproveitei para usar as faixas sulistas. Fui advertido que as únicas confiáveis eram as dos semáforos vermelhos, 10 segundos após fecharem. Pensei: "ok, estou acostumado a motoristas que cruzam sinais amarelos". Enquanto eu esperava, duas senhoras conversavam sobre um acidente com um biarticulado: "...foi criança pra tudo quanto é lado. Ainda bem que a babá não resistiu, não quero nem imaginar o que a família faria com ela...".

"Vermelho! 1, 2, 3, 4, ... ,10. Ok!" – cruzei são e salvo. Olhando para trás, vi um senhor lento demais. Fui socorrê-lo. Tomei-o pelo braço e seguimos. Já estávamos quase na metade quando abriu. Buzinas berravam à nossa esquerda e na segunda faixa os carros já passavam à 80. "Como dizia um antigo filósofo: Retroceder nunca, render-se jamais. – Avancemos, vovô!". Não sei se a melhor escolha, mais foi assim que consegui fazê-lo andar.

O problema foi ao chegar exatamente no meio...

Ambas as vias ventavam sobre nós e por pouco um automóvel não levou meu aceno que teimosamente tentava convencê-lo a parar. Dois longos minutos se passaram até o semáforo garantir nossa passagem pela Sete de Setembro.

"Vovô, coragem, só falta a pista do biarticulado e mais outra dessa. O senhor também vai ao Shopping Estação?"

Ele disse "sim".

segunda-feira, março 12, 2007

Sombras de Platão

Minha primeira experiência marcante com o cinema foi sentado num tamborete de madeira. Meu avô tinha tubos de desenhos, em sua grande maioria do Pica-pau. Assisti a dezenas deles na parede do fundo de sua garagem. Sem fazer muito esforço, consigo lembrar do barulho do projetor, daquele "tec-tec-tec" do filme passando. Assim como das chicotadas que a película dava no projetor no final do rolo. Daí, vovô seguia a colocar o próximo dizendo: "você não pode ligar a lâmpada com a máquina parada, senão queima a película".

O tempo foi passando e assisti a um longa que não sei se era triste. Nele, vi salas gigantescas reduzindo o tamanho, e centenas de acentos pouco anatômicos transformando-se em algumas dezenas de cadeiras super-confortáveis. A tela continuou diminuindo. O número de cadeiras, reduzindo. Quando percebi, a tela era meu monitor e eu estava sentado na única cadeira disponível.

Noutro dia, sentado num sofá ultra-acolchoado, assisti na parede do fundo da sala de um amigo a um filme que não me traz nenhuma lembrança, exceto a sensação do som fluir por todos os lados e vibrar nas paredes do meu estômago cheio de pipoca e coca-cola a cada explosão. Não havia nenhum "tec-tec-tec" e, ao final do filme, não ouvi som de nada estalando. Apenas apareceu uma tela branca e, no topo direito, uma seta informando "eject". Meu amigo tirou o disco do aparelho com tanto descuido que, se meu avô tivesse ali, certamente daria-lhe bronca.

Nessas décadas, imagem e som vêm aperfeiçoando a experiência do cinema, mas, diferente do que pensava meu avô, a coisa mais sagrada não é o objeto corpóreo. Ele sempre foi para mim um pretexto. Era um motivo para que tivéssemos alguma coisa em comum. Compartilhar de uma companhia inestimável assistindo a cupins marcianos serem transformados em apontadores; ou conversar sobre a impressão que tivemos ao ver uma caveira flamejante desrespeitar o devido processo legal.

terça-feira, março 06, 2007

Os puxões de orelha de dona Lissandra

Minha bisavó casou com 16 anos. Criou seis filhos dos oito que teve. Não se abalou com o natimorto, nem com o que morreu com três semanas, vítima de infecção. Nesse tempo não se tinha muito o que fazer da vida. Era estudar, trabalhar, casar, criar os filhos e morrer em paz. Sabendo que não me veria mais, aproveitou minha visita e confidenciou-me: "Fui feliz com seu bisavô por 73 anos. Certa feita, ele me preparou um jantar a luz de velas para comemorar nosso aniversário. Quando ele foi me beijar, subiu uma labareda da gravata. Ainda me pego sorrindo com essa lembrança. Sempre tive que tomar conta daquele menino desastrado. Você puxou a ele – não sei como continua solteiro – preciso encontrar alguém para cuidar de você! Perca tempo não. Seja feliz."