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segunda-feira, agosto 09, 2010

Rex

Tal como um filhote de cão, um cãozinho, que vive seus dias num apart hotel e quando solto na terra corre de um canto a outro pelo jardim, tal era a pessoa, de um lado para o outro, solto na cidade, sorvendo cada momento na sua cidade-jardim.

A dona preocupou-se quando o perdeu de vista. Receava perdê-lo de todo. Foi um alívio vê-lo exausto, arfando com a língua para fora, completamente despreparado para o início de uma nova semana.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Nada de hora extra

Chegou às 7:09 da manhã no trabalho. Antes dele, já tinham chegado outros dois: o primeiro às 6:30 e o outro às 6:50. Outros chegaram depois. Era o último dia do ano. Cada um cumpriria sua jornada de quatro horas e partiria para aproveitar as últimas horas do ano.

Finalizou um ofício para a gerente-geral substituta; reimprimiu o ofício, porque o prazo para resposta estava pequeno; tomou o café e o chá que o garçom trouxera; procurou um AR que poderia ter extraviado em duas gerências; conversou com o protocolo na esperança que eles tivessem o controle da correspondência; atualizou a planilha de progresso dos processos de fiscalização; tomou mais uma xícara de chá e um copo d'água; agradeceu o serviço e recebeu os cumprimentos do garçom que também partia para seu réveillon; despediu-se dos colegas que tinham chegado primeiro e já estavam de saída; anotou as pendências de cada processo, quando sua gerente o interrompeu: "O que é que você está fazendo aqui, menino? Já deu sua hora! Querem que pensem que eu sou uma gerente exploradora, é?".

Nem se deu conta da hora. Também não estava tão empolgado para sair do trabalho. O que era o hotel, quando se queria estar a 2.250km a leste dali? A despeito disso, estava bem. Havia uma expectativa. A dois passos do paraíso, como diria Evandro.

sexta-feira, outubro 30, 2009

Transparente

Amiga, perdoe minha masculinidade.

Amo cada hora que passo contigo, a troca de confidências, as caminhadas na areia, a contemplação do céu, o nascimento da lua, a leveza com que danças comigo. Fico ansioso para te contar as as novidades e as bobagens. Divirto-me com as suas histórias, com as suas fantasias, com seus desmantelos e confusões. Considero que és o tipo de pessoa que é companheira para a vida toda. Mulher que é dádiva para o homem.

Mas (sempre tem um "mas") não sinto o mesmo que sentes por mim. Não me entenda mal. Eu queria sentir, mas sou escravo da minha masculinidade, dos meus olhos, para ser específico.

Hoje entendo o conflito de Brás Cubas. És minha Eugênia. Meus olhos não veem a beleza que tens. Proíbem-me de desejar-te.

quarta-feira, setembro 30, 2009

Brev-ida-de...

Correu e, onde o chão acabou, saltou.

Na ascensão, abriu os braços como um pássaro, pôs a cabeça para trás e estufou o peito. Estava alçando voo, libertando-se do chão, exibindo sua leveza. O sol, a brisa, os irmãos pássaros, o planeta inteiro compunham a cena que pintor nenhum conseguiria capturar. Seu corpo refletia o brilho do sol e sentia-se quase tão quente quanto. O peito rimbombava sem nenhuma discrição. Seu rosto não escondia o gozo. Transcendia.

No instante seguinte, pôs os braços a cima da cabeça que reclinava, preparando-se para o mergulho. Estava pronto para descer às profundezas da terra. Mergulharia no desconhecido. Essa realidade iminente não lhe trazia temor. Ao contrário, exitava-o ainda mais. Aguardava pelo contato. Já provara suficientemente o céu. Rijo feito um torpedo desceu.

Desde o salto até aquele momento, que fração do tempo transcorrera? Seu relógio só marcava em eternidades. Até ali já tinha se passado algumas.

Quando os dedos tocaram a superfície, descobriu que não havia profundidade. Não portava um cinzel para penetrar numa rocha. E tal como um torpedo, destruiu-se no obstáculo. Não imaginava que estava mergulhando num lugar tão raso ou que encontraria um obstáculo tão cedo. Talvez houvesse sim, profundidade, mas colidiu em algo intransponível. Não conseguiu furtar-se daquele fim.

Despedaçado ficou, mas não por muitas eternidades. Por uma fração de tempo pensou se poderia ter sido mais prudente e, quase imediatamente, demoveu essa ideia. Prudência serve apenas para a exatidão matemática. O sentimento é imprudente. Em breve, sararia e saltaria novamente.

segunda-feira, agosto 31, 2009

Firewall ineficiente

O que é isso que me move a fazer algo por ela, para o proveito dela, que ela nunca saberá o quanto me custou, mas que faço sem questionar?

O que é isso que converte sua satisfação em paga suficiente pelo energia dispendida e pelas horas consumidas unicamente no intuito de surpreendê-la?

Posso apenas sugerir que houve uma falha na minha programação, talvez um ataque viral, muito embora não consiga diagnosticar com precisão a fonte do erro, nem isolar as sub-rotinas atingidas em meu sistema.

Ela deve ser uma hacker.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Num reino não muito distante...

Muito me entristeci com as notícias do mensageiro.

Mais de 210 mil ducas foram roubados pelo conselheiro do rei, representante do condado das florestas de Avilan, Thurar Liovigi. Quando foi descoberto, imediatamente devolveu a quantia e arquivaram a denúncia. Ante este fato, ainda discursaram no Conselho Real apontando-o como exemplo de transparência e honestidade.

Numa nota não muito distante dali, 5 centímetros, aproximadamente, conta a história de um menor L. E. S. O. que furtou um chapéu e uma bengala de um Lord foi pego pela cavalaria real. Apesar de devolver os objetos furtados e não poder ser levado ao cárcere, o menor foi internado na Santa Casa da Misericórdia do Lago de Março com uma costela quebrada e vários hematomas pelo corpo. A irmã, que não quis identificar-se, informou que se ele tivesse dois anos a mais, teria ido direto ao cárcere, naquele estado de saúde.

quinta-feira, junho 25, 2009

Prazer em conhecê-lo!

– Já que vamos dividir o quarto esses dias, é bom que possamos nos conhecer antes do curso.
– Não se preocupe, sou uma pessoa de boa convivência, um cara legal.
– Isso todo mundo diz. Eu quero estudar no quarto. Quero silêncio. Como eu sou da filosofia "o que vier é lucro" é mais fácil mostrarmos o lado negativo: sou chato e metódico. E você?
– Misturo-me em qualquer grupo sem expor-me, dificilmente as pessoas entram na minha intimidade; minto facilmente quando me convém; sou hipócrita em relação a credos que não afetam minha vida; é extremamente prazeroso e divertido ser cínico; sou muito vaidoso e minha vaidade reside no que sou, não no que tenho ou visto; gosto de elogio, mas não me incomodo em nada quando sou lisonjeado, provavelmente porque também sou lisonjeador, se me apraz.
– RP? Jornalista?
– Advogado.

sexta-feira, junho 12, 2009

Time Warp

Trabalhar diretamente com órgãos públicos traz certas surpresas. Em Cabedelo, a quarta-feira era feriado local, na quinta seria feriado nacional e, por isso, acharam por bem enforcar a sexta-feira para que todos, menos eu, ficassem felizes com um feriadão de cinco dias.

Se eles podem ter 5 dias de feriado, posso desviar da rota por 5 minutos e tomar um café. Existe um ótimo café no Shopping, numa área mais tranquila, longe da agitação da praça da alimentação. Lá eu fui e, estranhamente, muitos outros decidiram também ir. Quase não havia mesa livre. Seriam todos cabedelenses?

Não passou muito tempo, mais ou menos entre o terceiro e o quarto gole, uma senhora pede-me licença para sentar à mesa. Justificável, em face da lotação completamente desproporcional para aquela hora da manhã. Anui antes que ela terminasse a frase. Apenas quando ela sentou que pude reconhecê-la. Fazia 25 anos desde a última vez.

Minha antiga professora de inglês, por quem eu era completamente apaixonado, não havia perdido nenhuma fração do seu charme naqueles longos anos. Sandra continuava com olhos e sorrisos que penetravam na minha alma. E ainda me fazia babar. Disse meu nome apenas uma vez, só para que eu tivesse certeza que foi ela que me reconheceu à primeira vista. Dali adiante, eu era o "Honey" de 25 anos atrás, mas ela me corrigiu nas três vezes que a chamei de professora. "Sandra ou Sandrinha", puro e simples, soava estranho.

Será que ela tinha noção do que ela significava naquele passado longínquo? Será que eu tinha noção do que ela ainda representava para mim? Questionamentos esses que eu não ousaria indagar nem após as trocas de números de telefone.

Passaram-se duas xícaras grandes e foi pouco para atualizarmos um da vida do outro. Quem sabe no almoço, na próxima segunda-feira, ela me diga como conseguiu romper as dimensões do espaço-tempo.

sábado, maio 23, 2009

Açúcar ou Adoçante?

Perto a trigésima volta ao redor do sol, ela percebera que tudo precisava de um "Plano B", na frente da atendente do Café Aurora.

Após recebermos o pedido, parecia que estávamos sozinhos no Café. Lambendo o ganache da colher como quem tinha metade da idade, falava dos planos frustrados ao tom de piada. Solidarizei-me. Já saí do "Plano A" algumas poucas (milhares de) vezes. E do "Plano B". E do "C"... A depender da área da vida, já zerei o contador de planos.

Quem faz planos tem que aprender a fazê-los livres, para mudar conforme o vento. Eu faço planos, sou um planador.

Ela disse que era o acaso e, no ocaso daquele dia, no meio do último biscoito, não tinha planos para a noite. Mentira.

terça-feira, maio 19, 2009

Please, Donate Life

Desde que me entendo por gente, sempre quis doar o que pudesse aproveitar do material genético que trago comigo. Dizia à minha família: "não quero ser comida de verme, assim que eu morrer, podem doar o que se aproveitar. Quanto ao resto, botem fogo para não gastarem com sei lá quantos quilos de carne dentro de um caixão". Tinha esse tipo de consciência sem nem ter noção dos custos com os serviços funerários ou mesmo com a cremação.

Eu simplesmente não conseguia conceber qualquer noção de respeito a um cadáver, ainda que tivesse visto e participado do enterro, naquela época, de minha bisavó e avô maternos. Obviamente eu era capaz de respeitar a dor e o momento dessas cerimônias e senti a falta de meu avô e das brincadeiras que tivemos, mas aquele que estava no caixão, com algodão nos ouvidos e nariz, definitivamente, não era mais meu avô. Depois de implicarem tanto comigo, deixei essas conversas de lado.

Em mil novecentos e cocada, houve uma campanha da Cruz Vermelha na universidade onde eu estudava para a doação de sangue. Acredite, não é só aqui no Brasil que é difícil encontrar doador. Lá fui eu:
– Hi, I want to donate blood.
– Good morning! It's good to hear that! Come with me, please... You're not from here, are you? So, where're you from?
– Brasília, District Capital of Brazil.
– Oh! You're a foreign student. Nice! Let me see the chart here. Hm... Brazil... I'm sorry, you can't donate. Brazil has malaria.
– Don't worry! I never had it. Malaria can be found in the Rain Forest. I live in "dry land". Paraíba, the state where I live in, is far from Amazônia. I've never been any close from that disease.
– I'm sorry. Your country didn't eradicate malaria. You cannot donate.

Para quem tem renite alérgica, estar livre de qualquer funga-funga é algo que deve ser bem explorado. Quem tem esse tipo de coisa, nunca sabe se está gripado, ou numa crise alérgica, ou com renite, ou se apenas mexeu em algo que não devia. Miraculosamente, esta mazela tirou férias sabáticas das minhas vias aéreas já faz quase um ano e, recentemente, ouvi que eram necessários doadores. Dezessete anos depois, lá fui eu, de novo:
– Cirurgias? Além dessas simples de pontos em cortes e de um pino que coloquei, fiz tireoidectomia parcial.
– E você fez essa cirurgia por quê?
– Cresceu o nódulo e disseram que era pra remover. Mas era benigno e não alterava em nada na minha vida. Não preciso tomar remédios nem nada.
– Você teve hiper ou hipotireoidismo? Sabe qual era o nome do nódulo?
– Nenhum dos dois. Meus níveis de hormônios sempre estiveram OK. Agora, o nome? Sei não. "Fernando"!? Ele veio e foi e nunca soube o nome dele.
– Adenoma, Bócio, Hashimoto, Cisto, Riedel, alguns desses nomes lhe soa familiar?
– Eu só soube que era um nódulo e não deveria me preocupar, bastava tirá-lo.
– Se você não sabe o que é, eu também não sei. Quem sabe não era autoimune? Não posso deixar que você doe, posso colocá-lo como inapto definitivo...
– Calma! Eu posso trazer a documentação que tenho e você pode ver se posso ou não doar.
– Tudo bem, mas você também pode consultar seu endocrinologista.
– Ele já se aposentou. Teria que procurar outro. Vou juntar os exames que tenho e mostrarei ao senhor.

Cinco dias depois, venho com a documentação. Ao doar sangue, a pessoa não pode fazer atividade física por 12 horas. Por isso, só hoje pude vir.
– Bom dia, vim na quinta passada para doar, mas o médico me pediu que eu trouxesse uns exames a fim de verificar se posso ou não doar sangue.
– Bom dia, que bom que você veio doar! Sabe que isso é um gesto de amor e solidariedade? Sua identidade, por favor... Senhor, aqui diz que o senhor está inapto até 2036. O senhor poderia me acompanhar até o serviço social?

Minha sorte foi descobrir, no Hemocentro, uma conhecida de infância e, graças a Deus, era a médica do dia. Após ver meus exames e verificar que não há nada que me impeça de doar, fez a gentileza de acompanhar-me por todas as salas e terminais tentando desbloquear meu cadastro – a única coisa que, naquele momento, estava impedindo a emissão da abertura do meu protocolo para a doação. Uma hora depois, o analista do NPD garantiu que, à tarde, meu nome estaria liberado, o que significava que eu não poderia doar hoje e como minha amiga só trabalha às terças e sextas, o melhor era aguardar mais uma semana.

Espero que a pessoa em favor de quem irei – esperançosamente – doar sangue sobreviva até lá.


Mais informações sobre o assunto, clique aqui.

terça-feira, maio 12, 2009

Rai caiu

Borboleta sem asa, lagarta.
Cão sem dente, estorvo.
Deixou-a, roubando-lhe seu melhor.

Leite talhado.
Roupas folgadas.
A dieta funciona, mas não é publicável.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Aquiles

"Pois são as Preces, nascidas do Crônida Zeus poderoso,
coxas, de pele enrugada e de olhar indeciso e desviado,
as quais se afanam no encalço da Culpa, tentando alcançá-la.
Esta é, porém, vigorosa e de pés mui velozes; por isso
a todas elas se adianta, causando, onde quer que se encontre,
dano aos mortais, ao que as Preces procuram, depois, dar remédio.
Quem, a estas filhas de Zeus, ao chegarem, demonstra respeito,
delas obtém só vantagens, por serem seus votos ouvidos.
Mas, se, obstinados os homens ouvidos, acaso, lhes negam,
as Preces, logo, a Zeus Crônida sobem e, em instantes, suplicam
que sempre a Culpa os torture e que tenham, com o dano, o castigo.
"
(Ilíada, IX, v. 502-12)


Rastejava serena a noite e já era tarde. Ausente o Sono, as pálpebras insistiam erguidas em vigília.

Não haveria remissão à traição da mulher. As atenuantes do réu deveriam ser rechaçadas. A realidade não era passiva de perdão. Do réu não tinha certeza a autoria, ou sequer a culpabilidade, mas quem não era culpado? Inclusive ele, "o fiscal da lei", traíra sua esposa de modo ainda mais gravoso do que o dela, num congresso entre seus pares. Era dia. Em breve estaria no Tribunal do Júri. Entrementes, Hades, pessoalmente, consumia-lhe o estômago em chamas. Não seria seu melhor júri aquele.

Por muito reverberar nos pensamentos, a poesia homérica revelara o imo de sua inquietude. Os pés ligeiros da Culpa haviam-no alcançado de forma mais vigorosa do que pela ira fora tomado naqueles dias. Por não ouvir tantas súplicas, numa surdez seletiva, receou a fuga real da audição. Perdera o norte cumprindo cotas de condenações. Danara-se sem dar-se conta.

Sentiu falta da infância. Do prazer em ajudar. Dando um pouco de tempo e praticamente nada a quem absolutamente nada tinha. Carecia dos trabalhos na igreja, dos orfanatos, dos asilos. A gratidão vinda do socorro enchia-lhe a alma com uma plenitude que nenhuma convicção dada pelo júri poder-lhe-ia conceder.

terça-feira, janeiro 27, 2009

São Francisco de Assis

Quando se entra no ritmo das coisas, quando tudo torna-se familiar, parece que nada consegue tirar-nos do sério. Parece.

Hoje, como de costume, acordei antes do alarme, eram 5:40. Vi a tábua das marés e fui fazer o meu percurso. Na calçada à beira-mar, comecei a alongar. Quando me levantei, dei de cara com uma cadela, sentada, encarando-me com um palmo de língua para fora. Cumprimentei-a amistosamente. A essa hora do dia, a galera tem, em geral, pelo menos uns vinte anos a mais que eu. E, em geral, gostam de ser cumprimentados, vai ver que foi por isso que veio o cumprimento tão naturalmente.

Comecei a correr na areia fofa, naquele ritmo lento como se dá. O corpo ainda estava começando a embalar. O meu segredo é olhar sempre para frente, respirando, acenando para os conhecidos e logo vou vencendo a preguiça. Lá nos 700 metros, um senhor que caminhava no sentido contrário, vindo pela esquerda, puxou vigorosamente sua senhora pelo braço e passaram à minha direita, o que me fez perceber minha silenciosa companheira canina. Firme e forte, a danada trotava na minha velocidade. Fingi que não estava comigo. Na marca de 1000 metros há um quebra-mar. dali para frente a faixa de areia é batida, bem dura e plana, independente da maré. A cachorra continuou seguindo-me. Cheguei aos 2000 metros. Parei. Alonguei-me calmamente, na esperança de cansar minha acompanhante. Entretanto, ela pacientemente esperou que eu estivesse pronto para voltar e seguiu-me por mais 1000 metros. Nesse ponto, de volta ao quebra-mar, os últimos 1000 metros, é o trecho que volto nadando. Coloquei os óculos e comecei a entrar na água. Deu até pena, confesso. Ela andava para um lado e para o outro sem se aventurar a molhar mais do que as patas. O que podia ser feito? Aquele era meu percurso habitual, não estava sendo astuto de modo algum.

Com a maré ainda cheia, normalmente sou obrigado a afastar-me da costa ainda mais do que o costume por causa da arrebentação. Não chega a assustar, por essas bandas não há muito tubarão. Só, vez por outra, aparece um caçãozinho. Assim que passei dos corais e cheguei aonde as águas são mais profundas, uma sombra passou por baixo. Não dava para ter muito ideia de profundidade por ali. Continuei nadando. Pouco tempo depois passou novamente. Se era outra ou a mesma, não dava para perceber. A água estava turva e os óculos estavam um pouco embaçados. O diabo que iria parar ali para perguntar e esclarecer o mistério. Vários minutos depois, passou uma terceira vez. Daí fiquei mais tranquilo. Claro, se era para ter acontecido alguma coisa, tinha que ter sido lá atrás. E se fossem três ou duas criaturas, certamente, não seria cação, muito menos arraia. Quase no final do percurso, pouco menos de dois metros à minha direita, o que parecia uma rocha emergia, revelando o mistério: uma tartaruga marinha subia para respirar.

Não sei se era apenas uma ou um casal, mas tive a impressão que tive companhia naqueles 1000 metros pela água. Devia ser um conluio com a cadela que abandonei.

Acho que vou prestar mais cuidado com minhas orações. Quando pedir uma companheira, vou certificar-me de especificar que deve ser uma mulher da minha espécie.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

True Color

Depois de meses arrastando a reforma do escritório, finalmente chegamos à pintura. Rubens queria uma parede com textura, Santiago optava pelo que fosse mais barato e eu só desejava que aquilo tudo terminasse. Fechamos com o pintor. Ele sugeriu branco gelo para as paredes e branco para o teto, o que para mim era quase a mesma coisa, mas, "vá lá", ele era o profissional e devia entender melhor que eu. Noutro momento escolheríamos a cor da textura.

Até ali, nenhuma dificuldade. Apesar da minha visão resumir-se a 16 cores, nunca tinha enfrentado problemas para categorizar qualquer pigmentação entre preto, branco, cinza, azul, vermelho, amarelo, laranja, verde, roxo, marrom, rosa, vinho, bege, ouro, prata e bronze. E chegar numa loja com uma lista de material com os nomes das cores também nunca complicou meu dia.

Após latões de massa corrida e galões de tinta branca, chegou o momento de escolher a tal tinta da textura. Santiago estava numa cidade vizinha despachando com o juiz. Rubens confiava no gosto de Josias e estava bastante ocupado. Acabou sobrando para aquele que tinha mais pressa. Levei-o e deixei que escolhesse uma cor que combinasse com o ambiente. Eu pechinchei o preço, um que combinasse com meu bolso.

Tarde de sábado, quando quase todo o comércio está fechado, minha esposa liga, desesperada, convocando-me, urgentemente, ao escritório com os demais sócios, a tinta da textura tinha ficado horrível. Um escritório de três marmanjos não poderia ser pintado de pêssego, ou arreia ou palha, ou sei lá qual cor ela disse, que nada mais passava de algum tom entre amarelo e laranja, e que para mim era amarelo. Ela e a esposa de Santiago decidiram fiscalizar a obra justo no último dia de pintura.

Numa situação como aquela, no tom usado, com a voz da outra no fundo, não havia muitas opções: ou atendia ao chamado, ainda que demorasse um pouco para sequestrar os outros dois; ou sofreria uma retaliação desproporcional por algumas frias noites. Noventa minutos depois, estávamos no escritório, enquanto as fiscais esperavam no café, no térreo.

– Lucas, qual o problema?
– Vocês que me digam, Santiago.
– Por mim normal.
– Eu não falei que o pintor ia escolher direito?
– Rubens, as mulheres detestaram isso aí. Disseram que estava feminino.
– E isso é rosa? Pra mim é um amarelo puxado prum laranja.
– Santiago veste rosa e quem compra a roupa dele é Michele.
– Lucas, minha mulher não atende por "Fê-Fê". Prefiro os protestos por não acompanhá-la nas compras às reclamações de quando compro algo "feio", "cafona" ou "que não combina com nada que eu tenha".
– Não aguenta uma piada, rapaz? Então, o que fazemos? Pintamos tudo de branco?
– Daí tira o destaque, né? Se a gente queria uma textura tinha que ser com outra cor.
– Você queria.

Moral da história: sempre leve sua esposa para escolher as tintas do seu escritório. Porque não importa quanta saliva seja gasta ou promessas de comprar uma mobília máscula e arrojada, nada disso evitará uma cara bicuda e uma greve injusta quando ela ouvir que "não viu nada demais".

terça-feira, dezembro 30, 2008

Prática

Participou de todas as confraternizações e festas: a do trabalho, a da turma da faculdade, a dos amigos do colégio, a da família do pai, a da família da mãe e uma outra que nem sabia porque tinha sido convidada. A seqüência de eventos era mais ou menos a mesma: beijos e abraços em todos a medida que vinham chegando, conversas, bebidas e comidas, mais conversas e mais beijos e abraços em todos a medida que iam se despedindo.

Pensou firmemente que o que precisava era de alguém que não precisava ser muito bonito ou sarado, mas que a fizesse brilhar os olhos, que lhe desse uma vontade incontrolável de sorrir ao vê-lo e que a desejasse extasiada a cada bobagem que fizesse. Queria muito isso para si.

No último final de semana, foi a um sítio de uma de suas tias para receber uma outra tia, muito querida, que já não vinha por aquelas bandas desde sua colação. Conheceria, finalmente, Pedro e Júlia, seus primos mais novos. Além das tias, pai e mãe, muito barulho, gritaria e correria provavelmente iriam impedi-la de continuar sua leitura, por mais interessante que seu livro estivesse, mesmo assim o levou para salvá-la de qualquer eventualidade.

Em algum lugar, e ao mesmo tempo em todos os lugares da casa, enquanto Pedro e Gabriel corriam na velocidade que eles acreditavam ser a da luz, podia também se ouvir:
– Pitchiuuuuuuuuuuu!
– Bombaaaaaaaa!
– Matei!
– Eu não morri! Estou usando roupa de ferro!
– Então eu também estou.

Em duas redes não muito distantes:
– O que é isso que está na mão deles?
– Walk-talk.
– E isso agüenta esse rojão?
– Tia Liz vai descobrir depois que ela comprar baterias novas.

Júlia, que não conseguia acompanhar a velocidade da luz dos primos, somados aos três anos que a separavam deles, cansou-se rapidamente daquela monótona perseguição. Dirigiu-se a uma rede que já estava ocupada por alguém com pelo menos trinta anos de diferença. Agarrou-se à rede e tentou vigorosamente lançar uma perna por cima da rede, em vão, mas não por muito tempo, já que foi socorrida pela ocupante.

– Cansou, Ju?
– Sim – disse, balançando a cabeça.
– Quer fazer alguma coisa agora?

A pequena foi curvando-se na rede sobre o corpo da maior, abraçando seu pescoço até onde seus curtos braços alcançavam. Colocou o ouvido sobre o seio do seu forro-humano-de-rede e ficou ali, paradinha. O "não", veio como um murmúrio.

– Quer dormir comigo, Ju?

Júlia acenou positivamente a cabeça. Como se toda sua energia tivesse abandonando o corpo, ou como se já estivesse testando a maciez daquele colchão que descobrira na prima mais velha. O colchão, por sua vez, entendeu e silenciou-se, no exato momento que começou a reformular aquilo que firmemente achava que precisava.

sábado, dezembro 20, 2008

Costume

A sensação era desagradável. O eminente fim de ano chegando com festas, presentes e comemorações não combinavam com a consciência de que o tempo lhe escapava das mãos. A despeito da evolução alcançada profissionalmente, de tudo que suportara na reabilitação da saúde, de como tinha chegado até ali. Os alvos não alcançados tinham uma voz muito mais alta na sua auto-crítica.

Tal como papai-noel, já acostumara-se a vestir a fantasia do espírito natalino. Decorara os votos, conversas e piadas de fim de ano. Acendia o brilho nos olhos e dispunha o melhor sorriso nas festividades. Já lhe era tão natural aquele esforço, que só lembrava do peso do costume quando chegava em casa, nem por isso correria da festa. Chegar em casa também significava estar só e isso também tinha sua dose de cansaço.

Fingir-se-ia de bem com a vida. Quem sabe não acreditaria na sua própria encenação?

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Cãibra

O azul anil do céu lá fora e as centenas de pássaros chilreando nos galhos do jambeiro não combinavam com o branco azedo dos lenços de papel que transbordavam pelas bordas do cesto.

Ainda reverberavam nos ouvidos: "estás magra". O que, por intuito sincero do amigo, seria um elogio, era, na verdade, a constatação da sua incapacidade de digerir aquele instante, os pratos da mãe, o rompimento da relação, os consolos idiotas... Quem sabe se, por não comer, desapareceria do mundo?

Descendo uma onda, há pouco mais de 10km daquela cama, não havia nenhum prazer no velô. Cut-back, 360º, ARS... Tentava destruir a onda com a prancha. Não conseguia – e nem queria – curtir o momento. Inconscientemente queria levar o corpo à exaustão, talvez assim pararia de pensar nela.

A cena ainda estava viva na mente, reproduzindo continuamente. Ela tinha sido grossa com ele. Ele tinha se chateado, mas queria por as coisas em pratos limpos. "Desculpe, mas eu sou assim. Esse tipo de coisa a gente não controla. São hormônios e não há nada que eu possa fazer". O tom da voz, o olhar vil, os braços cruzados... não saberia dizer o que o ofendera mais. Queria paz. Queria voltar a sentir prazer no borborinho da espuma das ondas.

O orgulho, travestido de amor-próprio, impediu a ambos que ligassem.

quarta-feira, novembro 26, 2008

Uma noite ela me disse "quero me apaixonar"

Número desconhecido chamando. Numa hora daquelas, só poderia significar duas coisas: ou um cliente em apuros, ou engano. Torcendo para que fosse a primeira hipótese, que também significava dinheiro, atendeu.

Errou.

Ele reconheceu-a imediatamente na saudação: um "olá!" festivo de três segundos de duração, e que se seguiria com desculpas por estar ligando àquela hora e por não ter avisado-o que mudara o número. Desculpas que era apenas o cumprimento de convenções sociais. Tudo que ela queria, era saber se ele estava disponível e revê-lo.

A partir dali, não haveria hipóteses, nem erros. Já sabia como a conversa seguiria e aonde terminaria.

Era sempre assim, de tempos em tempos, nesses últimos nove anos. Nada mudou quando ela teve Léo, nem mudará quando ele contar que é pai de Bia.

domingo, novembro 23, 2008

Epíteto

Depois de três anos trabalhando no fórum São João do Rio do Peixe, Lindalva finalmente estava satisfeita com o rumo que sua vida havia tomado. Passaram sete meses e meio, desde o dia que o viu entrando no saguão do hotel onde morava até o dia que entraram juntos no cartório de Cajazeiras para assinar os papéis do casamento.

Nem foi muita surpresa para a família de Clodoaldo ao descobrir que casaria com sua primeira namorada, o que espantou também não foi a velocidade de sua resolução, mas sim que a escolhida também era, como ele, promotora de justiça. Apenas oito meses após a nomeação e lotação para São José de Piranhas, o danado já queria constituir um lar.

Lindalva não era linda, nem era alva. Na verdade, nem era Lindalva. O que parecia nome era um apelido dado pelo pai, por ocasião da decisão, em sede de liminar, dos alimentos provisionais na ação de reconhecimento de paternidade. Em vão tentava o pai provocar a filha com a alcunha. E, quem sabe não tinha sido por causa desse evento que ela descambou para o Direito e carregou consigo aquele nome.

Entre uma assinatura e outra, tudo havia passado. Estava até se acostumando a ser chamada pelo apelido do apelido. Dalva soava muito bem. Tão bem quanto Aldo. E que nunca descubram o quanto ela achava que seus sogros tinham mau gosto para nomes próprios.

sexta-feira, outubro 31, 2008

De acordo

Milhares eram os fios ao vento, dançavam nas correntes de ar, batendo asas na maresia.
Ariscos como a dona – seriam eles ou ambos que me seduziam ao seu lado?
Recatados em nada os cabelos, ela sim, ou não, conforme a maré, ou o dia, ou a noite.
Imagem pitoresca que não me sai da memória:
Andando na praia, deliciando-se com a brisa e com o sol das oito já quente.
Naquele instante, só havia ela, ou seria o caso de uma visão seletiva... não sei.
Ali só havia o mar, um calçadão de areia, uma película d'água cobrindo-o e seus pés neste tapete desfilando.

Tem horas que o mar, o sol, a praia encantam-me os olhos.
Esta não era nenhuma dessas horas.

Caminhei com ela, sem sentir a distância
Um momento, sem a dimensão do tempo, cheio de conversas.
Rimos como nos primeiros dias, olhava-a como naquela festa.
Todo dia é bom para se apaixonar, não é?
O bom é que seja pela mesma pessoa, não?