domingo, novembro 23, 2008

Epíteto

Depois de três anos trabalhando no fórum São João do Rio do Peixe, Lindalva finalmente estava satisfeita com o rumo que sua vida havia tomado. Passaram sete meses e meio, desde o dia que o viu entrando no saguão do hotel onde morava até o dia que entraram juntos no cartório de Cajazeiras para assinar os papéis do casamento.

Nem foi muita surpresa para a família de Clodoaldo ao descobrir que casaria com sua primeira namorada, o que espantou também não foi a velocidade de sua resolução, mas sim que a escolhida também era, como ele, promotora de justiça. Apenas oito meses após a nomeação e lotação para São José de Piranhas, o danado já queria constituir um lar.

Lindalva não era linda, nem era alva. Na verdade, nem era Lindalva. O que parecia nome era um apelido dado pelo pai, por ocasião da decisão, em sede de liminar, dos alimentos provisionais na ação de reconhecimento de paternidade. Em vão tentava o pai provocar a filha com a alcunha. E, quem sabe não tinha sido por causa desse evento que ela descambou para o Direito e carregou consigo aquele nome.

Entre uma assinatura e outra, tudo havia passado. Estava até se acostumando a ser chamada pelo apelido do apelido. Dalva soava muito bem. Tão bem quanto Aldo. E que nunca descubram o quanto ela achava que seus sogros tinham mau gosto para nomes próprios.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Percepção

Quando não se pode ver,
Quando não se pode ter,
Saudade sentir para quê?
– Para o idiota sofrer.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Despachando com o Juiz – Viva o bom senso!

– O pedido principal, a retirada do nome da empresa do Serasa, não foi consignado no acordo, Vossa Excelência, apenas o valor dos danos materiais e morais. Daí eu pergunto: terei que entrar com novo processo apenas para resolver isso?
– Não! Verei o seu processo... por favor, o senhor anote o número... que, com um despacho, posso resolver nesse mesmo processo.
– Muito obrigado.
– O senhor fez uma petição a esse respeito?
– Fiz sim. Também juntei a certidão comprovando o alegado.
– Outro processo pra resolver isso!? Eu tenho dois mil do eletrônico e outros mil remanescentes do físico, quero acabar com esse acúmulo no começo do ano que vem.
– Amém!

sexta-feira, outubro 31, 2008

De acordo

Milhares eram os fios ao vento, dançavam nas correntes de ar, batendo asas na maresia.
Ariscos como a dona – seriam eles ou ambos que me seduziam ao seu lado?
Recatados em nada os cabelos, ela sim, ou não, conforme a maré, ou o dia, ou a noite.
Imagem pitoresca que não me sai da memória:
Andando na praia, deliciando-se com a brisa e com o sol das oito já quente.
Naquele instante, só havia ela, ou seria o caso de uma visão seletiva... não sei.
Ali só havia o mar, um calçadão de areia, uma película d'água cobrindo-o e seus pés neste tapete desfilando.

Tem horas que o mar, o sol, a praia encantam-me os olhos.
Esta não era nenhuma dessas horas.

Caminhei com ela, sem sentir a distância
Um momento, sem a dimensão do tempo, cheio de conversas.
Rimos como nos primeiros dias, olhava-a como naquela festa.
Todo dia é bom para se apaixonar, não é?
O bom é que seja pela mesma pessoa, não?

sexta-feira, setembro 19, 2008

Entre borboletas e golfinhos

– Boa tarde.
– Pois não?
– Queria ter informações sobre as aulas de natação.
– É para o senhor? Sabe nadar pelo menos três estilos?
– Bem... Eu sei nadar dois: chumbinho e cachorrinho.
– O senhor vai ter que vir um dia para fazer uma aula de teste.
– Brincadeira minha. Precisa não. Eu sei nadar os quatro estilos, sim.
– O senhor vai ter que fazer o teste. Só depois vamos saber se lhe colocamos com os iniciantes ou com a turma avançada.


Nota pessoal: Se a pessoa tem cara de chata, é possível que ela realmente seja chata – melhor evitar piadas.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Clips

Há tempos não via mais de um palmo de sua mesa. Coberta de papéis, recibos, fotocópias, pilhas e pilhas de tranqueiras, aquele deixou de ser um lugar para receber pessoas.

De súbito levantou-se. Começou a pegar cada papel. Aumentou o volume do som. Examinava um a um e colocava num ponto no chão. O ar estava inundado com música e o chão coberto de pilhas menores de papel. Entre um passo ou outro de dança, uma folha voava rumo ao cesto de lixo, as demais descansavam em seus respectivos lugares.

Era um processo de libertação.
Ou de transformação.
Pouco importava.
Era bom e isso bastava.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Segunda-feira, à noite

Exausto... Tudo que eu queria era chegar em casa, dar uma olhada no saldo e vê-lo gordo. Bastava isso: não ter que me preocupar mais com esse dinheiro suado. Que fadiga... Pensam que a gente não trabalha. Só queria ouvir "bom trabalho, gostei", em vez daquele sorriso amarelo de quem foi atendido, mas queria que fosse de graça. Tão cansado... Ombros doem, pescoço dói, calcanhares doem... Preciso de um banho, não, de uma hidromassagem. Passar meia-hora lá com um jato de água nas costas e nos pés. Na verdade, acho que queria uma namorada. Alguém que fosse companheira, com quem pudesse dividir a carga. Tão carente... Queria um colo, um cafuné. Só isso.

sexta-feira, agosto 08, 2008

A vida, o bolo e tudo mais

Já aprendi que por nada no universo devo atirar a toalha, todavia confesso que estou muito intrigado com esse costume terreno do aniversário.

Falando em termos locais, independente de que momento a pessoa tenha nascido, a cada volta que seu planeta natal dá em torno do sol (o que acontece em aproximadamente 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos) é, nesse dia, celebrado o aniversário da pessoa. Vale como data festiva todo o período de 24 horas que engloba o instante do nascimento, pouco importa a posição espacial do planeta. Aliás, há quem que até se importe com essa configuração, mas não como deveria. De fato, tenho que o que se comemora é o dia, no caso de hoje, seria 08/08/08.

O que se celebra é outro problema. Duas frases comuns são "feliz aniversário" e "parabéns pra você". Ambas são carentes de um significado que revele esse mistério do festejo.

Aparentemente, parecem ser congratulações por se ter completado mais um ano de vida. Algo como "meus parabéns, você conseguiu escapar da morte por mais um ano inteiro". Pela minha experiência, tenho uma vaga idéia de quantos perigos um indivíduo pode ter escapado e vencer essa perseguição da morte pode ser considerada uma vitória, motivo de muitos parabéns. Entretanto, cá comigo, o fato de sobreviver não é exatamente um motivo para parabenizar. Não consigo imaginar estar nos escombros de uma nave que perdeu metade da tripulação dando meus sinceros parabéns aos sobreviventes por essa proeza de estar vivo.

Pensando de outro modo, lembro que o que se seguem às frases típicas são desejos de dias melhores, o que poderia reforçar o pensamento anterior, mas também podem significar que o que se comemora é a possibilidade de ter, esperançosamente, mais um ano de vida e mais uma chance de fazer a coisa certa. Nesse caso, seria como "parabéns, você ganhou uma nova chance, desejo que você acerte dessa vez". Tudo bem que as pessoas daqui erram bastante, contudo não creio que seja bom lembrar que no último período não houve uma plenitude de sucessos. E quando houver? Será que vão acabar com a vida dele no próximo aniversário? Acredito que não. Afinal, os daqui nunca estão plenamente satisfeitos, mesmo atingindo sua plenitude, não percebem. Imagino que ouvir todo ano um "tente melhor na próxima" deveria ser algo frustrante e, aparentemente, não é (isso, se compreendido dessa maneira).

Talvez, todas essas palavras sejam códigos secretos ou não carregam, em si, qualquer significado real. Ou, talvez, havia um sentido no passado, porém pode ter sido esquecido com o decorrer dos anos da mesma forma que muitas das saudações como "Olá, como vai? / Vou bem, e você? / Vou bem, também." (a tréplica é quase sempre ignorada se pelo menos um dos interlocutores estiver com pressa). E, carentes de sentido, só permanecem presentes como pretexto para fazer festa e receber agrados naquele dia do ano solar.