terça-feira, outubro 09, 2007

Garimpo

É manhã. Duas horas para tomar café e atualizar-se "antes" de trabalhar, porque o chefe não considera que essa tarefa seja trabalho ou aperfeiçoamento do mesmo. Aliás, na última Happy Hour, ele tinha dito que isso era somente garantia da manutenção do vínculo empregatício.

Abre o agregador de feeds: 297 itens novos: 9 posts de amigos; 93 de fóruns; 1 de flog; 18 duma revista profissional; 147 do G1; 15 das notícias do STF; 8 das do STJ; 3 quadrinhos, 2 comentários do seu blog e 1 do flog.

E começa a filtrar: 16 para o ócio laboral ou para a hora do almoço, falta 281. G1 selecionado, ativa o scrolling numa velocidade rápida o suficiente para distinguir o importante do fútil: Quem quer saber que o promotor que bateu o carro estava com uma latinha de cerveja? Fóruns, mesma técnica. Não impressiona a miríade de tópicos repetidos: iniciantes que não procuram a leitura básica dos manuais ou o Google. Em menos de 40 minutos só restam 41. Revista eletrônica, scrolling mais lento, dois artigos merecem ser lidos. STF e STJ: Pula as fofocas e os pedidos feitos, ao todo, sobram apenas 9 decisões a ler.

Email: quase 300 filtrados no anti-spam. Uma dezena de emails pessoais, sendo um de um colega do departamento. O resto fica para depois.

terça-feira, setembro 25, 2007

In Natura

O brilho dos seus olhos fazia o dia raiar. Divertia-se moldando bichos de nuvens, guardando o barulho do mar nas conchas e fazendo nascer plantas nos lugares mais inusitados. Era especialista na arte de fazer arte, de fazer rodamoinho no pé dum pé de planta, de ensinar folha a dançar no ar, de fingir ser o amigo imaginário duma criança brincando sozinha. Tinha o riso frouxo. Tudo aquilo era muito gostoso.

Certo dia, num desses inspirados, controlando-se para não rir, colocara um sonho insano no rapaz que acabara de almoçar ao pé duma árvore. Ao virar-se, percebeu que ela estava ali, vendo a cena (ou pensou que ela tinha visto). Todavia ela fora vista: sorriso doce, voz suave, caminhar leve e um cheiro, uma fragrância, que nunca tinha sentido antes. Ficou cativado.

Numa noite qualquer, seguiu-a até sua casa. Descobriu seu quarto e fez uma rosa brotar na frente da janela. Esperou amanhecer e para ver sua reação. Não poderia ter sido melhor. Danou-se. Queria ser gente. Queria ser homem e para isso fez nascer braços e pernas, cabeça e tronco, mãos e pés. Fez sangue correr pelas veias e artérias. Seu sangue fervia.

Fervia o sangue. Fervia a alma. Nunca o sol estivera tão quente naquele ano que não teve inverno. E de tanto ferver. Evaporou-se. Nenhuma criatura aprende a ser gente de uma hora para outra. Nem gente aprende! Enquanto evaporado, sentiu os primeiros ventos frios. Resistiu e tentou lutar, porém o vento era tão implacável que o fez condensar.

Já há muito não chovia tanto quanto as águas daquela noite. E ele caiu do céu feito pedra, e como pedra ficou por incontáveis dias chuvosos. Cobriu-se de líquen, vestiu-se musgo, não achava o lodo bonito, mas acabou usando um pouco. Ele choveu tudo o que pôde e quando não pôde, pintou o firmamento de cinza e assim deixou.

Numa manhã qualquer que começara como todas as anteriores, sentiu uma cutucada no dorso. Um passarinho desavisado foi limpar o bico num cantinho esquecido pela relva que o envolvera. Fez lembrar de dias passados, fazendo-o suspirar de saudade. O suspiro abriu um pouco o céu, o suficiente para que o sol lhe mandasse os cumprimentos e chamasse-o para uma visita. Ele disse que confessava-se grato pela lembrança, mas estava "bem de pedra" (daquele jeito) e "quem sabe outro dia". Coincidentemente, ou não, o passarinho bicou-lhe as costas. Seguidas vezes. Ele não sentia as patas que algum inseto ágil em fuga, só poderia ser provocação daquela ave que queria fazê-lo levantar. Levantou-se. O passarinho saudou-o. O sol secou-lhe corpo com seus raios e refletiu seu brilho no olho negro do passarinho. Lembrou-se de si novamente, entretanto não suspirou. Tomou coragem, fez surgir asas enormes e decidiu conversar com o sol.

Passou o dia voando e proseando com o sol, um dia com tantas horas que dariam um ano, percebeu que, naquele tempo todo, não tinha visto o verde. Tudo ao redor era tão seco quanto a secura que o dominara. Agradeceu o convite ao sol, deu-lhe boa tarde e mergulhou na primeira nuvem que viu. Largou as asas e caiu no mar.

Nadou por todos os mares, fez ondas de todos os tamanhos, conheceu algumas sereias... Nem os mares quentes o fez sentir como antes. Até repetiu, por vezes sem número, várias de suas especialidades, porém aquilo perdera o sabor. Não encontrou mais lugar para si.

Preferiu viver a vagar.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Em prosa e verso

Um certo político local, sem que nunca tivesse escrito uma rima antes, sem nunca, sequer, ter criado expectativas a respeito de qualquer qualidade artística sua, publica uma obra impecável.

Tamanha desenvoltura pode ser observada também nas páginas que descrevem seu perfil: Mal assumiu o cargo, foi convidado pelo governador do estado para ser o primeiro secretário de um novo órgão que, coincidentemente, foi ele mesmo criara enquanto ainda trabalhava na assembléia legislativa.

Parafraseando Chico Science:
"Ghost writers fazem arte,
seus clientes fazem dinheiro...
...dinheiroooooooooooo...
"

terça-feira, setembro 04, 2007

Igualdade Substancial

Desde que fui praticamente obrigado a ser o que hoje sou, tenho pensado no tal "índio lá no meio do mato". Expressão viva do contrassenso do nosso ordenamento jurídico. Conquanto a Carta Magna e o Código Civil escusaram-se desta discussão, deixaram sua capacidade jurídica regulada por leis especiais de tempos remotos que, estranhamente, tratam o índio, em um momento como incapaz (persistindo uma divergência se a incapacidade seria absoluta, por prever a nulidade de atos desacompanhados de tutela; ou relativa, por exigir uma assistência e não uma representação do órgão tutelar); ou como capaz em outro instante, a depender da integração à sociedade.

Eu não tive escolha (ou garantia). Não pude dizer que queria viver como índio, ou cigano, ou quilombola. A despeito de considerar-me tão humano quanto esses e, por tanto, credor do mesmo zelo, fui invadido pela tecnologia, pela cultura universal e por um senso de ética e moral cujas origens me são estranhas. Forçado a interagir, consolei-me com a preservação de certo folclore regional, alguns hábitos e gírias locais. Sou impedido de congelar-me no tempo e no espaço. Se é dessa feita, travestido de protesto, entendam que o índio também deveria padecer esse processo por uma questão de justiça e de isonomia. Ou disfarçado de conselho, exorto que é uma punição de caráter perpétuo promover a permanência dessa vítima numa era de trevas sem os "benefícios" (e malefícios) da modernidade. Tratam-no como um bicho que pode fazer tudo irresponsavelmente, fazendo de escudo sua cultura ancestral em face de atos que qualquer um seria condenado, ainda que a defesa alegasse ser uma "tradição da família".

É, ante o exposto, perfeitamente viável, aceitável e aconselhável que o ele conheça o mundo em que vive. E que viva pelas regras do Estado como todo cidadão, porque não deixa de ser índio aquele que deixa de ser ignorante da realidade que o cerca.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Moralidade faz bem

Já que os navegantes do Google em busca da PEC 54 sempre aportam nesses mares, façam o favor de contribuir com o abaixo assinado:






Nome: _______________________ Identidade: ______________________ Ir para o formulário
Este abaixo assinado será enviado à Câmara dos Deputados onde estão tramitando duas PECs (Proposta de Emenda Constitucional) com o objetivo de efetivar 300.000 servidores públicos que não fizeram o concurso público determinado pela constituição federal.
Você pode enviar também sua mensagem de protesto para: ouvidoria.parlamentar@camara.gov.br



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quinta-feira, agosto 30, 2007

Hipnos

Lembrou do que disse um amigo "já está na hora de olhar para frente". Lembrou e esqueceu no mesmo instante. Não iria ficar conjecturando se o que ele estava olhando era o passado ou o futuro ou o céu. Aquilo era o agora. Isso bastava.

Beijava-a como querendo engolir-lhe a alma enquanto suas mãos reconheciam o corpo dela. Enroscava-se como uma cobra que encontra no galho sua guarida. Não queria vê-la longe nunca mais. De repente, surge um brilho forte que começa a inundar o ambiente quando, finalmente, percebe que o sol atravessara a janela do quarto, dissipando sua mulher no clarão.

Até quando invadir-lhe-á o sono? Até quando sua presença (ou ausência) seria sentida?

A voz e o riso dela ecoavam por espaços vazios dentro de si, devorados pela saudade.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Bio

Tem "um tempinho" desde que fiz meu primeiro implante: o braço esquerdo. Não o perdi por causa de aposta (antes fosse). "Fatalidade profissional" – riscos da atividade forense.

No princípio, relutante, porém, como todos, acabei sendo empurrado para a mesa de cirurgia. Trajeto que se tornou um tanto quanto corriqueiro. A título de exemplo, a mão direita foi substituída três vezes e nem lembro por quantas fui queixando-me de ajustes nos joelhos. A essencialidade dos motivos também modifica-se. Foram bastantes os fatos dos joelhos orgânicos genuflexos, que não me permitiam demorar em pé na Tribuna ou no Júri; das dores lambaris; duma gastrite incurável, etc. Existem lá alguns efeitos colaterais inusitados: vez por outra acordo com as mesmas dores terríveis nos joelhos que me acompanharam durante praticamente toda a adolescência e, na época, o médico costumava dizer que era "de crescimento", como se isso servisse de consolo a quem tinha 12 anos de idade. Ressalvadas certas idiossincrasias, o procedimento hoje é bem tranqüilo. Troquei as últimas partes por artificiais há pouco menos de 50 anos, quando já tinha a certeza de que tudo iria funcionar como se natural fosse.

Não creio que deixei de ser "eu" pelo que perdi do corpo original. Não acredito que minha alma ou meu espírito estavam vinculados àquela massa biológica. Tanto é verdade que ainda guardo, com carinho e saudade, meus cabelos de quando eram compridos junto ao anel que ela me deu, o mais significativo presente que dela recebi.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Hi-Fi

O filme Alta Fidelidade não é espetacular, mas é gostoso de assistir. Para ele (que faz o gênero que associa uma pessoa, um evento, um momento ou praticamente tudo a uma música), um deleite. Dizem que para cada ocasião da vida existe uma do Cazuza. Falam o mesmo das do Legião. Entretanto, naquele exato instante não tinha uma que lhe servisse. Talvez uma frase ou outra tão fora de contexto que nem daria para cantarolar um verso.

Era uma situação invulgar. Caminhando a esmo, seus pés o levaram a um pubzinho espremido (como quase todo estabelecimento comercial das entrequadras), sentou num banco sem saber o que pedir. Sentia um calafrio na espinha e no fundo do estômago, pensou em algo quente ou um gole de juízo. Não! Passara tempo demais bebendo daquelas coisas e já tinha sido seduzido pelo gostinho da loucura.

Sem "theme song", sem bebida ou drink, cem mil possibilidades e alguns dados na mão.

Alea jacta est.