sexta-feira, outubro 31, 2008

De acordo

Milhares eram os fios ao vento, dançavam nas correntes de ar, batendo asas na maresia.
Ariscos como a dona – seriam eles ou ambos que me seduziam ao seu lado?
Recatados em nada os cabelos, ela sim, ou não, conforme a maré, ou o dia, ou a noite.
Imagem pitoresca que não me sai da memória:
Andando na praia, deliciando-se com a brisa e com o sol das oito já quente.
Naquele instante, só havia ela, ou seria o caso de uma visão seletiva... não sei.
Ali só havia o mar, um calçadão de areia, uma película d'água cobrindo-o e seus pés neste tapete desfilando.

Tem horas que o mar, o sol, a praia encantam-me os olhos.
Esta não era nenhuma dessas horas.

Caminhei com ela, sem sentir a distância
Um momento, sem a dimensão do tempo, cheio de conversas.
Rimos como nos primeiros dias, olhava-a como naquela festa.
Todo dia é bom para se apaixonar, não é?
O bom é que seja pela mesma pessoa, não?

sexta-feira, setembro 19, 2008

Entre borboletas e golfinhos

– Boa tarde.
– Pois não?
– Queria ter informações sobre as aulas de natação.
– É para o senhor? Sabe nadar pelo menos três estilos?
– Bem... Eu sei nadar dois: chumbinho e cachorrinho.
– O senhor vai ter que vir um dia para fazer uma aula de teste.
– Brincadeira minha. Precisa não. Eu sei nadar os quatro estilos, sim.
– O senhor vai ter que fazer o teste. Só depois vamos saber se lhe colocamos com os iniciantes ou com a turma avançada.


Nota pessoal: Se a pessoa tem cara de chata, é possível que ela realmente seja chata – melhor evitar piadas.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Clips

Há tempos não via mais de um palmo de sua mesa. Coberta de papéis, recibos, fotocópias, pilhas e pilhas de tranqueiras, aquele deixou de ser um lugar para receber pessoas.

De súbito levantou-se. Começou a pegar cada papel. Aumentou o volume do som. Examinava um a um e colocava num ponto no chão. O ar estava inundado com música e o chão coberto de pilhas menores de papel. Entre um passo ou outro de dança, uma folha voava rumo ao cesto de lixo, as demais descansavam em seus respectivos lugares.

Era um processo de libertação.
Ou de transformação.
Pouco importava.
Era bom e isso bastava.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Segunda-feira, à noite

Exausto... Tudo que eu queria era chegar em casa, dar uma olhada no saldo e vê-lo gordo. Bastava isso: não ter que me preocupar mais com esse dinheiro suado. Que fadiga... Pensam que a gente não trabalha. Só queria ouvir "bom trabalho, gostei", em vez daquele sorriso amarelo de quem foi atendido, mas queria que fosse de graça. Tão cansado... Ombros doem, pescoço dói, calcanhares doem... Preciso de um banho, não, de uma hidromassagem. Passar meia-hora lá com um jato de água nas costas e nos pés. Na verdade, acho que queria uma namorada. Alguém que fosse companheira, com quem pudesse dividir a carga. Tão carente... Queria um colo, um cafuné. Só isso.

sexta-feira, agosto 08, 2008

A vida, o bolo e tudo mais

Já aprendi que por nada no universo devo atirar a toalha, todavia confesso que estou muito intrigado com esse costume terreno do aniversário.

Falando em termos locais, independente de que momento a pessoa tenha nascido, a cada volta que seu planeta natal dá em torno do sol (o que acontece em aproximadamente 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos) é, nesse dia, celebrado o aniversário da pessoa. Vale como data festiva todo o período de 24 horas que engloba o instante do nascimento, pouco importa a posição espacial do planeta. Aliás, há quem que até se importe com essa configuração, mas não como deveria. De fato, tenho que o que se comemora é o dia, no caso de hoje, seria 08/08/08.

O que se celebra é outro problema. Duas frases comuns são "feliz aniversário" e "parabéns pra você". Ambas são carentes de um significado que revele esse mistério do festejo.

Aparentemente, parecem ser congratulações por se ter completado mais um ano de vida. Algo como "meus parabéns, você conseguiu escapar da morte por mais um ano inteiro". Pela minha experiência, tenho uma vaga idéia de quantos perigos um indivíduo pode ter escapado e vencer essa perseguição da morte pode ser considerada uma vitória, motivo de muitos parabéns. Entretanto, cá comigo, o fato de sobreviver não é exatamente um motivo para parabenizar. Não consigo imaginar estar nos escombros de uma nave que perdeu metade da tripulação dando meus sinceros parabéns aos sobreviventes por essa proeza de estar vivo.

Pensando de outro modo, lembro que o que se seguem às frases típicas são desejos de dias melhores, o que poderia reforçar o pensamento anterior, mas também podem significar que o que se comemora é a possibilidade de ter, esperançosamente, mais um ano de vida e mais uma chance de fazer a coisa certa. Nesse caso, seria como "parabéns, você ganhou uma nova chance, desejo que você acerte dessa vez". Tudo bem que as pessoas daqui erram bastante, contudo não creio que seja bom lembrar que no último período não houve uma plenitude de sucessos. E quando houver? Será que vão acabar com a vida dele no próximo aniversário? Acredito que não. Afinal, os daqui nunca estão plenamente satisfeitos, mesmo atingindo sua plenitude, não percebem. Imagino que ouvir todo ano um "tente melhor na próxima" deveria ser algo frustrante e, aparentemente, não é (isso, se compreendido dessa maneira).

Talvez, todas essas palavras sejam códigos secretos ou não carregam, em si, qualquer significado real. Ou, talvez, havia um sentido no passado, porém pode ter sido esquecido com o decorrer dos anos da mesma forma que muitas das saudações como "Olá, como vai? / Vou bem, e você? / Vou bem, também." (a tréplica é quase sempre ignorada se pelo menos um dos interlocutores estiver com pressa). E, carentes de sentido, só permanecem presentes como pretexto para fazer festa e receber agrados naquele dia do ano solar.

terça-feira, julho 29, 2008

Você tem: uma nova mensagem

Olá, Ruiva,

É muita cara-de-pau minha em escrever "estive ocupado" sem dar nenhuma nova notícia? Infelizmente, não havia novas a dar. Confiarei no teu longânimo coração e no quanto já me conheces. A verdade é que tudo era/está mais ou menos o mesmo. Talvez a maior novidade é que terminei os livros que me deste. Só o do Nietzche que continuo em 5%.

Quando nos vermos, vais perceber que não ficaste em segundo plano. Pois é... Sempre esqueço de cortar o cabelo nesses períodos.

Só tenho a esperança que, em alguma realidade paralela, outra versão minha está bem melhor que eu aqui. Tenho tentado cortar o supérfluo (e, com isso, ganhar tempo), mas muito do que me é importante tem ido no bolo. Parece a parábola do joio e do trigo.

Comprei-te uma coisinha, espero que goste.

Beijo,
Bobby

segunda-feira, junho 09, 2008

O pior de tudo é não poder dirigir

Sabe-se lá como uma pessoa pode conciliar cinco horas diárias de fisioterapia, estudo para concursos, audiências, e ainda auxiliar nos pepinos tecnológicos da empresa da família.
Sabe-se lá como alguém pode ter como sonho conseguir tocar a nuca com a palma da mão.
Sabe-se lá como vencer toda matéria de um edital num tempo tão ínfimo e ainda arrumar um dinheiro extra para fazer a prova no exato local onde Judas perdeu as meias (meio mundo depois de onde ele tinha perdido as botas).
Sabe-se lá quantas vezes o indivíduo consegue evitar os choques de horário sem atrasar o curso lento dos processos e ainda ter a sorte de assistir o Pleno do STF julgar improcedente a ADI 3510 sobre o estudo com as células-tronco embrionárias (numa reprise no domingo).
Sabe-se lá o segredo para expurgar pepinos.
Sabe-se lá por onde anda esse santo milagreiro.

sexta-feira, maio 16, 2008

Que fique registrado

Após 96 dias, o braço direito, sozinho, conseguiu levar sua mão a apoiar-se em cima do ombro esquerdo, finalmente.