quinta-feira, março 05, 2009

Regrado

Passar sete dias sem almoçar e viajar 1.650 km de carro em três dias definitivamente não faz bem à saúde, mas ensinaram-me que não fui talhado para ser caminhoneiro.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Deadline

O melhor do "prazo" (além de inibir o sono e o apetite) é que te faz realizar em 24h o que não se fez em uma semana.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Adrenalina

...por isso, a afirmação de Borges faz todo o sentido. Um conjunto de más ações vão, em algum momento no tempo, causar um bem, se já não foram, elas mesmas, consequência de uma ou mais ações aparentemente positivas. Eu sei que você é espírita e não estou querendo implicar com a sua religião, mas, suponto que existam imortais, tempo não é problema – a não ser que a Terra exploda ou venha uma Era do Gelo –, certo? Então... veja a Lei Maria da Penha – que para mim é questionável, mas para você é excelente – é resultado de uma infinidade de más ações no passado. Não se pode questionar que ela é boa em muitos aspectos, mas mesmo nesses aspectos, o que me garante que ela não vai acabar sendo usada como o CDC, que a princípio era excelente e hoje é usado por muitos consumidores como máquina do dano moral? Como estava dizendo, esse ciclo de bem, que gera o mal, que gera o bem, que gera o mal é infinito. Não tem fim. Do ponto de vista humano, estamos sempre ligados a essa dicotomia que, segundo Borges, acabaria por anular o sentimento de piedade, e, principalmente, o valor de bem e mal. Eu acho que, nesse caso, ele viajou. Mas, tudo bem, respeito a sua religião e a loucura dele. Afinal de contas, louco por louco tem o vampiro Lestat, que sempre achou que a vida era aqui, e viu o que aconteceu com ele depois que se deu conta que estava errado. Por falar em loucura, A História da Loucura, de Foucault, está em promoção. Depois de ler, você pode se perguntar se em algum momento histórico, ou atual, seu bilhete à Nau dos Loucos não estaria garantido e, talvez, até questionar se sua sorte é boa ou má por estar aqui, fora do internamento, tendo em mente o que Borges disse...


Não sei o que é pior: se o abismal contrate entre a radiante excitação de quem fala e a funesta inércia de quem ouve; ou a expressão de absoluta incompreensão do pensamento alheio; ou a refinadíssima capacidade de deixar a pessoa profundamente constrangida, sem graça, com a sensação que de ter sido, no mínimo, inconveniente.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Aquiles

"Pois são as Preces, nascidas do Crônida Zeus poderoso,
coxas, de pele enrugada e de olhar indeciso e desviado,
as quais se afanam no encalço da Culpa, tentando alcançá-la.
Esta é, porém, vigorosa e de pés mui velozes; por isso
a todas elas se adianta, causando, onde quer que se encontre,
dano aos mortais, ao que as Preces procuram, depois, dar remédio.
Quem, a estas filhas de Zeus, ao chegarem, demonstra respeito,
delas obtém só vantagens, por serem seus votos ouvidos.
Mas, se, obstinados os homens ouvidos, acaso, lhes negam,
as Preces, logo, a Zeus Crônida sobem e, em instantes, suplicam
que sempre a Culpa os torture e que tenham, com o dano, o castigo.
"
(Ilíada, IX, v. 502-12)


Rastejava serena a noite e já era tarde. Ausente o Sono, as pálpebras insistiam erguidas em vigília.

Não haveria remissão à traição da mulher. As atenuantes do réu deveriam ser rechaçadas. A realidade não era passiva de perdão. Do réu não tinha certeza a autoria, ou sequer a culpabilidade, mas quem não era culpado? Inclusive ele, "o fiscal da lei", traíra sua esposa de modo ainda mais gravoso do que o dela, num congresso entre seus pares. Era dia. Em breve estaria no Tribunal do Júri. Entrementes, Hades, pessoalmente, consumia-lhe o estômago em chamas. Não seria seu melhor júri aquele.

Por muito reverberar nos pensamentos, a poesia homérica revelara o imo de sua inquietude. Os pés ligeiros da Culpa haviam-no alcançado de forma mais vigorosa do que pela ira fora tomado naqueles dias. Por não ouvir tantas súplicas, numa surdez seletiva, receou a fuga real da audição. Perdera o norte cumprindo cotas de condenações. Danara-se sem dar-se conta.

Sentiu falta da infância. Do prazer em ajudar. Dando um pouco de tempo e praticamente nada a quem absolutamente nada tinha. Carecia dos trabalhos na igreja, dos orfanatos, dos asilos. A gratidão vinda do socorro enchia-lhe a alma com uma plenitude que nenhuma convicção dada pelo júri poder-lhe-ia conceder.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Some people just don’t have any luck

Confesso que fui apresentado a Woody Allen cedo demais e, por isso, sou meio traumatizado com seus filmes, principalmente se envolver um peito gigante destruindo a cidade. Mas como sou brasileiro e não desisto nunca, aceitei a recomendação de uma amiga: experimentar Woody Allen temperado com Scarlett Johansson. A pedida é levemente picante e com um aftertaste ligeiramente amargo e, como todos os filmes de Allen, é servida crua. Se você odeia spoiler e não assistiu Match Point (2005), convido-o a parar imediatamente a leitura, retirar-se da sala, ir numa locadora, pegar o filme, comprar pipocas e, depois de cumprir essa maratona, voltar daqui a 124 minutos.

Citada quatorze vezes e aparecendo em dezoito cenas, a grande personagem dessa história é a sorte. Sobre ela o autor discursa e usa os demais personagens humanos meramente como exemplos vivos. A hipótese levantada pelo protagonista é bem clara: sorte é o maior valor que se pode aspirar, não a bondade e, com sua licença, incluo a justiça, a nobreza e qualquer outro sublime valor moral. Com isso em mente, o protagonista é apresentado como um farsante inteligente e com muita sorte. Poderia até apostar que se eu estivesse em Londres, em 2005, na saída de alguma sala de cinema, teria escutado, com todo sotaque britânico, o tradicional "that (bloody) lucky bastard" em nove de cada dez referências feitas ao personagem de Jonathan Rhys Meyers, Chris.

Na minha humilde visão, desde o começo, ele queria dar o golpe do baú. Aculturou-se como pôde, trabalhou no local correto, fez amizades com as pessoas certas etc, sempre com a sorte fazendo-se muito presente em cada uma dessas ações e escolhas. A sorte fê-lo arrumar o aluno certo, que tinha uma irmã solteira e carente. Ele teve sagacidade no modo (ou sorte na escolha do modo?) de como tratar a família para cativá-la, porém, nem mesmo dado uma série de mancadas envolvendo-se com Nola, a sorte o abandonou, ao contrário, nunca era pego em nenhum de seus deslizes.

Nola, por outro lado, era a tipificação da garota sem sorte. Uma mulher extraordinariamente linda que não consegue, em absoluto, nenhum papel como atriz, nem mesmo um onde só a beleza bastaria?! É até surreal apresentar uma situação como aquela, mas Woody Allen é surreal, só por isso deixo passar. Particularmente, prefiro não considerar como falta de sorte a gravidez e o fato de se envolver com um cara como o Chris, porque acho que é bom diferenciar burrice de falta de sorte. Todavia, acho que talvez Allen pense diferente, fazendo coro com a multidão que diz nessas horas: "uma garota tão boa, mas não tem sorte com os homens". Entretanto, longe estou de acusá-la de plantar a própria morte. Numa relação onde não existia agressividade, quem poderia imaginar que dela surgisse um homicídio por um motivo tão vil? Ainda mais quando não havia chantagem concreta — eram apenas brigas e chiliques — e quando a amante era incrivelmente submissa. Impossível não sentir muita pena da personagem, ainda que se conte em desfavor a única traição enquanto noiva e a completa cegueira ao ser amante. Foi azarada até a morte.

Então, nos minutos finais do filme, você vê o arremesso do anel, tal como uma bola de tênis, quicando na proteção e caindo no lado de quem o arremessou, repousando na mureta. Você arregala os olhos, aponta o indicador na tela e pensa, ou grita, conforme o entusiasmo da hora: "Arrá! Finalmente a sorte abandonou o canalha!". E imediatamente tem uma pequena crise moral, visto que ao punir Chris, a tonta personagem de Emily Mortimer, Chloe, e seu nascituro também sofreriam. Por outro lado, cerrarão os olhos da justiça para Nola e seu feto? Antes que você consiga resolver esse seu drama moral, a sorte se mostra, naquele evento de aparente derrota, ainda mais fiel to that bloody lucky bastard!

O filme é cruel. Tenta ensinar que a sorte pode ser absurdamente injusta e plena. Sinceramente, prefiro uma outra visão sobre a sorte. Prefiro pensar que quanto mais estudo/trabalho/treino/(insira aqui qualquer outro verbo que dê ideia de empenho pessoal), mais sorte tenho. Ao menos eu fico um pouco iludido com o pensamento que alguma coisa ao meu redor depende de mim para acontecer.


Publiquei esse texto no Mosaicum.org, um blog colaborativo sobre tudo, menos informática.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Planilha

Pondo na ponta do lápis, motivos não faltam para ficar apertado nos próximos dias:
– Dois IPTUs para pagar, cota única, com 20% de desconto;
– IPVA e seguro do carro;
– Matrícula, uniforme e material escolar dos guris;
– A fatura salgada das parcelas dos cartões que incluem desde os biquínis para a patroa à presentes para toda a família;
– Academia, Natação e, se sobrar, Dança de Salão.

O Décimo-Terceiro deveria ser dado em 15 de Janeiro.

...e já vem chegando abril com o IRPF...

terça-feira, janeiro 27, 2009

São Francisco de Assis

Quando se entra no ritmo das coisas, quando tudo torna-se familiar, parece que nada consegue tirar-nos do sério. Parece.

Hoje, como de costume, acordei antes do alarme, eram 5:40. Vi a tábua das marés e fui fazer o meu percurso. Na calçada à beira-mar, comecei a alongar. Quando me levantei, dei de cara com uma cadela, sentada, encarando-me com um palmo de língua para fora. Cumprimentei-a amistosamente. A essa hora do dia, a galera tem, em geral, pelo menos uns vinte anos a mais que eu. E, em geral, gostam de ser cumprimentados, vai ver que foi por isso que veio o cumprimento tão naturalmente.

Comecei a correr na areia fofa, naquele ritmo lento como se dá. O corpo ainda estava começando a embalar. O meu segredo é olhar sempre para frente, respirando, acenando para os conhecidos e logo vou vencendo a preguiça. Lá nos 700 metros, um senhor que caminhava no sentido contrário, vindo pela esquerda, puxou vigorosamente sua senhora pelo braço e passaram à minha direita, o que me fez perceber minha silenciosa companheira canina. Firme e forte, a danada trotava na minha velocidade. Fingi que não estava comigo. Na marca de 1000 metros há um quebra-mar. dali para frente a faixa de areia é batida, bem dura e plana, independente da maré. A cachorra continuou seguindo-me. Cheguei aos 2000 metros. Parei. Alonguei-me calmamente, na esperança de cansar minha acompanhante. Entretanto, ela pacientemente esperou que eu estivesse pronto para voltar e seguiu-me por mais 1000 metros. Nesse ponto, de volta ao quebra-mar, os últimos 1000 metros, é o trecho que volto nadando. Coloquei os óculos e comecei a entrar na água. Deu até pena, confesso. Ela andava para um lado e para o outro sem se aventurar a molhar mais do que as patas. O que podia ser feito? Aquele era meu percurso habitual, não estava sendo astuto de modo algum.

Com a maré ainda cheia, normalmente sou obrigado a afastar-me da costa ainda mais do que o costume por causa da arrebentação. Não chega a assustar, por essas bandas não há muito tubarão. Só, vez por outra, aparece um caçãozinho. Assim que passei dos corais e cheguei aonde as águas são mais profundas, uma sombra passou por baixo. Não dava para ter muito ideia de profundidade por ali. Continuei nadando. Pouco tempo depois passou novamente. Se era outra ou a mesma, não dava para perceber. A água estava turva e os óculos estavam um pouco embaçados. O diabo que iria parar ali para perguntar e esclarecer o mistério. Vários minutos depois, passou uma terceira vez. Daí fiquei mais tranquilo. Claro, se era para ter acontecido alguma coisa, tinha que ter sido lá atrás. E se fossem três ou duas criaturas, certamente, não seria cação, muito menos arraia. Quase no final do percurso, pouco menos de dois metros à minha direita, o que parecia uma rocha emergia, revelando o mistério: uma tartaruga marinha subia para respirar.

Não sei se era apenas uma ou um casal, mas tive a impressão que tive companhia naqueles 1000 metros pela água. Devia ser um conluio com a cadela que abandonei.

Acho que vou prestar mais cuidado com minhas orações. Quando pedir uma companheira, vou certificar-me de especificar que deve ser uma mulher da minha espécie.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

True Color

Depois de meses arrastando a reforma do escritório, finalmente chegamos à pintura. Rubens queria uma parede com textura, Santiago optava pelo que fosse mais barato e eu só desejava que aquilo tudo terminasse. Fechamos com o pintor. Ele sugeriu branco gelo para as paredes e branco para o teto, o que para mim era quase a mesma coisa, mas, "vá lá", ele era o profissional e devia entender melhor que eu. Noutro momento escolheríamos a cor da textura.

Até ali, nenhuma dificuldade. Apesar da minha visão resumir-se a 16 cores, nunca tinha enfrentado problemas para categorizar qualquer pigmentação entre preto, branco, cinza, azul, vermelho, amarelo, laranja, verde, roxo, marrom, rosa, vinho, bege, ouro, prata e bronze. E chegar numa loja com uma lista de material com os nomes das cores também nunca complicou meu dia.

Após latões de massa corrida e galões de tinta branca, chegou o momento de escolher a tal tinta da textura. Santiago estava numa cidade vizinha despachando com o juiz. Rubens confiava no gosto de Josias e estava bastante ocupado. Acabou sobrando para aquele que tinha mais pressa. Levei-o e deixei que escolhesse uma cor que combinasse com o ambiente. Eu pechinchei o preço, um que combinasse com meu bolso.

Tarde de sábado, quando quase todo o comércio está fechado, minha esposa liga, desesperada, convocando-me, urgentemente, ao escritório com os demais sócios, a tinta da textura tinha ficado horrível. Um escritório de três marmanjos não poderia ser pintado de pêssego, ou arreia ou palha, ou sei lá qual cor ela disse, que nada mais passava de algum tom entre amarelo e laranja, e que para mim era amarelo. Ela e a esposa de Santiago decidiram fiscalizar a obra justo no último dia de pintura.

Numa situação como aquela, no tom usado, com a voz da outra no fundo, não havia muitas opções: ou atendia ao chamado, ainda que demorasse um pouco para sequestrar os outros dois; ou sofreria uma retaliação desproporcional por algumas frias noites. Noventa minutos depois, estávamos no escritório, enquanto as fiscais esperavam no café, no térreo.

– Lucas, qual o problema?
– Vocês que me digam, Santiago.
– Por mim normal.
– Eu não falei que o pintor ia escolher direito?
– Rubens, as mulheres detestaram isso aí. Disseram que estava feminino.
– E isso é rosa? Pra mim é um amarelo puxado prum laranja.
– Santiago veste rosa e quem compra a roupa dele é Michele.
– Lucas, minha mulher não atende por "Fê-Fê". Prefiro os protestos por não acompanhá-la nas compras às reclamações de quando compro algo "feio", "cafona" ou "que não combina com nada que eu tenha".
– Não aguenta uma piada, rapaz? Então, o que fazemos? Pintamos tudo de branco?
– Daí tira o destaque, né? Se a gente queria uma textura tinha que ser com outra cor.
– Você queria.

Moral da história: sempre leve sua esposa para escolher as tintas do seu escritório. Porque não importa quanta saliva seja gasta ou promessas de comprar uma mobília máscula e arrojada, nada disso evitará uma cara bicuda e uma greve injusta quando ela ouvir que "não viu nada demais".